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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ateliê do Desapego – Entre Picasso e Bispo do Rosário

Picasso (1881 - 1973) dizia que: “A Obra escraviza o artista”. Queria o gênio dizer que para um artista a sua arte é a coisa mais importante que há. Realizar sua obra é tão importante e necessário que vira um vício, uma mania que foge ao seu controle.

Por isso muitas pessoas não entendem o sacrifício e a conduta de alguém que está impregnado em fazer arte. Identificando-os, às vezes, como loucos. Na verdade, nestes casos, está se fazendo arte para não perder a sanidade.

O brasileiro Arthur Bispo do Rosário (1909 - 1989), diagnosticado como esquizofrênico, viveu muitos anos num asilo para “loucos de todo o gênero” (denominação que o Código Civil da época dava aos portadores de distúrbios mentais). No entanto ele conseguiu de certa forma subverter a condição de “louco” através da sua produção artística. Incrivelmente singular e complexa em seu simbolismo e referências à sua condição humana e ao próprio Brasil.

Não que a arte tenha lhe curado, mas ele encontrou no fazer artístico, uma forma de se comunicar com o mundo, e assim se “colocar” nele. Permaneceu um esquizofrênico, já que o transtorno não tem cura. Mas mesmo com tal, pode falar à sociedade o que pensava e transmitir todo seu imaginário aos, digamos assim, “sãos”.

A arte foi uma ponte entre seu mundo quase impenetrável e indecifrável e a sociedade estabelecida. Hoje Arthur Bispo do Rosário, que faleceu em 1989, é considerado um dos maiores aristas nascidos no Brasil. Embora, repito, não tenha deixado de ser um esquizofrênico. Como se do ver, tais condições – a de artista e a de doente mental – não excluem uma à outra.

É curioso notar como nos dois casos – Picasso e Bispo do Rosário – a arte agiu de forma diferente, mas convergindo para um mesmo ponto. De um lado ela é neurotizante, e como uma droga tira o sujeito da condição comum da realidade e o leva a criar um mundo singular e imaginário, um “mundo novo”, quase metafísico. Senão veja a obra de Picasso e o mundo “todo seu” (e também nosso, através do acesso à sua obra) que ele criou, em especial desde sua Fase Azul até chegar à desconstrução da figura no Cubismo

Pelo outro lado o universo aparentemente incoerente de um doente mental se materializa em obras de arte que passam a comunicar ao mundo seu imaginário, sua condição como pessoa, suas opiniões, desejos, interesses. E assim os dois universos podem interagir e criar cultura.

É como se o fato de produzir arte conduzisse a um meio termo. Nem o concreto, prático e pseudo-real, nem a total alienação de um mundo particular e solitário. A arte nos faz convergir para o equilíbrio entre o metafísico e o real. Entre o corpo (matéria) e a mente. Entre o espírito e carne.

Por isso considera-se a Arte como característica identificadora e fundamental da condição humana. Ela significa a ligação – aqui não é uma mera referência à religião, uma das fontes fundadoras e profícuas da arte – entre o material e o não-material.

Produzir arte é lidar constantemente com essa dualidade. E conseguir equilibrar essas duas faces da nossa existência é a própria dialética que nos identifica como humanos e nos diferencia dos animais. A arte é a expressão máxima da Cultura.

Em Fortaleza quem quiser conferir o trabalho de alguns pacientes com transtornos mentais e conhecer “outros mundos” de belezas próprias, tem uma excelente chance até o dia 15 de fevereiro na sede da ONG Enxame, no Mucuripe, através da exposição “Ateliê do Desapego”.

Os trabalhos foram produzidos por pacientes-artistas do CAPS – Centro de Atenção Psicossocial Geral da Secretaria Executiva Regional II (SER II) da Prefeitura de Fotaleza.  É uma excelente oportunidade para ampliar nossos olhares e nossa visão de mundo e podermos interagir com pessoas singulares e de experiências de vida interessantíssimas.

Pode-se falar em terapia, mas um olhar mais cuidadoso enxergará muito mais do que um tratamento para melhorar condições de vida. Verá uma ponte que pode ligar os universos particulares de “alienados” ao da nossa realidade, que de tão prática e urgente, se torna tão alienante quanto.



Serviço:
Até o dia 15 de fevereiro de 2012
Das 08h00 às 12h00 e das 14h00 às 17h00
Entrada franca
85 8795 2751

Enio Castelo

Fortaleza – CE, janeiro de 2012.

Obra da Exposição "Ateliê do Desapego" (Divulgação)


Rosário, Arthur Bispo do 
Manto de Apresentação (detalhe) , s.d. 
tecido, fio e corda 
219 x 130 cm 
Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea/Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, RJ) 
Reprodução Fotográfica Vicente de Mello
fonte: 
http://www.itaucultural.org.br



Pablo Picasso (Self-Portrait) 1972
fonte: http://www.arthistoryarchive.com


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Dezembro Digital de Wilson Neto


 “ ...a gente se preocupa mais com a motocicleta do que com a viagem.” Marcelo Tas

Estou sempre escrevendo sobre a questão do suporte, que, na verdade, trata-se de uma não-questão. Mas como escrevo sempre pensando no contexto do Ceará e neste sentido encontro aqui certa antipatia em aceitar como arte o que não é exclusivamente pintura e escultura, volto a abordar esse tema. Também porque o nome (“Dezembro Digital”), da exposição que me faz escrever agora, cita explicitamente o suporte. Assim, assumo o risco de me repetir.

Todos nós sabemos que Duchamp (1887-1968) rompeu com a ditadura do suporte a partir dos seus “ready mades”. O urinol é uma ironia mordaz contra os que acreditavam (alguns acreditam ainda) que a arte só pode se materializar com tinta sobre tela ou a partir de um bloco de mármore.

A infinidade de maneiras com quê a arte contemporânea se coloca nos faz acreditar que “tudo é possível” e o que impera é, finalmente, a criatividade e o conceito. A idéia, e eu, diria também, a comunicação (uma idéia a ser desenvolvida em outro texto), intrínsecas à obra, a partir da concepção de um artista ou de vários artistas (os coletivos), é o que torna a obra relevante.

Lógico que em se tratando de mercado (quanto mais o de arte – o gosto é um fator decisivo) sempre haverá preferências. E a pintura acadêmica, por exemplo, terá seu público cativo independente da tendência do mercado. Até mesmo se pensarmos na tela sob o aspecto de objeto, e objeto histórico (além do artístico, é claro).

Na exposição “Dezembro Digital”, Wilson Neto com muita inteligência escolheu navegar entre duas margens: nem a liberdade total de suporte da arte contemporânea, nem o dogmatismo da pintura em tela. Suas obras são concebidas no computador, mas materializadas em tela (geralmente de grandes proporções). O computador é seu instrumento tal qual o pincel para o pintor ou uma câmera para o fotógrafo. Através do processamento de informações digitais, um nome complicado para computador, cria sua linguagem singular.

O que talvez pareça uma opção fácil para um artista, é na verdade: coragem e visão de futuro. Vislumbra-se uma inteligente noção sobre o mercado de arte, sobretudo o local (Ceará). Aqui, parênteses para a marchand Mariana Furlani (Mariana Furlani Arte Contemporânea), que aposta comercialmente com uma individual bem estruturada e importante, com uma proposta nova e de um artista também relativamente novo.

O argumento de que a arte digital seria uma forma fácil de produzir arte, além de conceitualmente não ter importância – quem disse que dificuldade técnica é um pré-requisito para boa arte? – e preconceituoso, sequer se aplicaria no caso de Wilson Neto. O artista em outras oportunidades mostrou trabalhos de um requinte artesanal e dificuldade de produção que remetem aos bordados do Ceará e ao estilista Lino Villaventura e à técnica do pontilhismo de Seurat (1859 – 1891).

É óbvio que, para ele, a técnica não é um problema a ser vencido. Nem tão pouco produzir arte através de uma plataforma eletrônica não requeira a sua própria técnica. Uso esse argumento, mas o fato é que para os grandes artistas, mais importante do que conhecer e praticar uma técnica, é, a partir dela ou não, criar a sua própria. Daí nascerá uma linguagem pessoal que caracterizará o artista (não mais o técnico que sabe fazer “arte”).

Digo coragem e visão porque o mercado cearense ainda é um pouco ortodoxo e mesmo algumas pinturas mais conceituais não são, muitas vezes, aceitas ou são recebidas com uma resistência que não existe em outros lugares. A exceção que confirma a regra é a maravilhosa obra de Antonio Bandeira (1922 - 1967) que teve seu trabalho reconhecido ainda em vida, mas não sem o apoio do, àquela época, recém inaugurado MAUC - Museu de Arte da UFC, através do seu reitor Antônio Martins Filho, nome importante e de respaldo na sociedade cearense.

 “Dezembro Digital” aposta num suporte que significa quase uma transição entre a consagrada pintura e a liberdade total na arte contemporânea. O que, além dos aspectos mercadológicos, tem seu significado como ponte entre o que era e o que virá.

Wilson sabe que o que importa é a consistência de sua obra como estética. Mas não nega o valor que é materializar seu conceito em um suporte que atenda a colecionadores e galerias. Neste aspecto, o fato de sua arte digital se apresentar em tela, ser tangível (um objeto, portanto), denota que ele quer administrar muito bem a tensão entre, a “Arte” e o “Mercado de Arte”.

Ao mesmo tempo em que ele concebe objetos (telas), não abre mão das infinitas possibilidades de criar que o computado oferece. O que o liga à liberdade e autonomia que arte contemporânea, de certa forma, defende.

Uma opção inteligente para um artista criativo e ousado, já seguro da qualidade e consistência de sua obra e afinado com o tão necessário “Mercado De Arte”.

Serviço:
“Dezembro Digital”
A partir de 07de dezembro de 2011
+ 55 85 3242 2024



Fortaleza – CE, dezembro de 2011.


Obra de Wilson Neto
fonte: http://diariodonordeste.globo.com/

Convite para exposição Dezembro Digital de Wilson Neto



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Exposição de Tomie Ohtake em Fortaleza

Tomie Ohtake (1913) é lirismo puro, é sentimento. Não há nela a preocupação exagerada com a razão, os números ou a teoria das cores, embora não os negue.

Ela intui, melhor ainda, simplesmente sabe. Suas telas são gestos poéticos. É o lirismo feito matéria. É sentimento que se pode ver.

Tela de Tomie Ohtake
fonte: http://www.opovo.com.br

Imperdível, portanto, a exposição individual da artista promovida pela Galeria Multiarte em Fortaleza. Não por ser necessário ver os trabalhos, mas pelo privilégio que nos é oportunizado.


Serviço:
17/nov/2011 a 17/dez/2011
Seg a Sex das 10h00 às 18h00, Sab das 14h00 às 20h00
+ 85 3261 7724

Enio Castelo



sexta-feira, 15 de julho de 2011

Exposição de Sérvulo Esmeraldo na Pinacoteca de São Paulo

Quem estiver em São Paulo nos meses de julho e agosto não pode deixar de conferir uma retrospectiva na Pinacoteca do estado, Pc Luz, 2 - São Paulo, 01120-010, do escultor cearense Sérvulo Esmeraldo. A exposição segue até 14/08

Sérvulo é, talvez, o mais importante artista plástico cearense vivo. Do alto dos seus 82 anos continua trabalhando em suas esculturas abstratas e construtivistas em Fortaleza. Algumas delas podem ser vistas pelas ruas de Fortaleza e outras cidades como a "Tetraedros" (escultura em aço de 1997) no Parque do Ibirapuera em São Paulo.

Sérvulo bebe na fonte da arte cinética e do abstracionismo geométrico (EDIMAR SOARES)  - Fonte:  O Povo On Line


A curadoria do evento é de Ricardo Resende, que dentre outras coisas é consultor do Projeto Leonilson e fez um importante trabalho no Centro Cultural Dragão do Mar em Fortaleza quando passou por lá.

Serviço:
Exposição
Sérvulo Esmeraldo
Até 14/08/2011
Das 10h às 18h
11 3324100

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