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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Estrigas

Alguém postou no Facebook a seguinte frase: “Como se fosse possível Estrigas morrer.”

Acho perfeita. Estrigas (1919-2014) se vai, seu corpo virará cinzas e será espalhado no famoso baobá que fica no seu sítio no Mondubim e não há o que se fazer sobre esse fato.

Mas como ocorre com todo grande artista, a obra de Estrigas fica para sempre. É inestimável seu legado.

Sua obra pictórica é singular. Parte da figuração e caminha numa transição serena para o abstracionismo lírico, sem, contudo, nunca perder totalmente o contato com a figuração.

Ontem parei por alguns momentos no painel em mosaico que fica no Moinho J. Macedo (no caminho da Praia do Futuro). Sempre reparo naquela obra. Foi meu primeiro contato com o trabalho de Estrigas.

É magnífico ver como a imagem vai se transformando sutilmente numa quase abstração. A figura não é mais absoluta, Estrigas não precisa copiar a realidade, ele parte dela para nos fazer sonhar em nuances de cores e linhas.



Se considerarmos apenas a obra pictórica de Estrigas já teríamos muito, mas ele foi além. Tanto com a criação do Museu em seu sítio em parceria com a companheira Nice (também artista singular), com as orientações aos novos artistas que lhe procuravam, com sua atuação fundamental na SCAP e, principalmente, no meu entender, com sua obra escrita sobre arte.

Quem quer conhecer sobre as artes plásticas cearense do século XX até o presente, têm que passar necessariamente pelos registros, estudos e crítica de Estrigas.

Acredito que até o próprio Estrigas não tinha a dimensão da importância desse trabalho.

Registrar a história e analisar criticamente a arte é um trabalho difícil e quase não reconhecido no Ceará. Estrigas fazia isso sistematicamente e com obstinação.

Nada melhor que alguém que vivia concretamente a arte do Ceará e foi próximo a artistas fundamentais no Brasil como Antônio Bandeira (1922-1967) e Aldemir Martins (1922-2006) – apenas citando alguns – para dar seu testemunho.

Um testemunho que não tem preço e que servirá de fonte inesgotável de arte e cultura para as próximas gerações.

O futuro da cultura, em especial das artes plásticas cearense, deve muito à Estrigas. Embora tristes diante de sua perda, a poucos dias, sejamos gratos e contentes pelo legado inestimável que deixa de herança à Arte Cearense.

Obrigado Estrigas.
Fortaleza/CE
Outubro de 2014.

Enio Castelo

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Registros preciosos

Costumo me aborrecer quando vejo algumas pessoas darem maior valor (às vezes todo o valor) à arte como decoração. O que é um preconceito meu em relação ao chamado “design de interiores”. Mas sinto que conteúdos mais relevantes contidos na arte são invariavelmente desprezados e esquecidos.

Talvez seja uma bobagem minha, já que o caráter decorativo tem seu valor dentro da arte. Inclusive na história da arte como nas tribos primitivas onde a pintura do corpo era crucial na formação da identidade de alguns povos. E se observarmos a obra de Matisse, o genial artista francês, há uma preocupação indiscutível com a decoração. Sem falarmos no Barroco Mineiro e suas igrejas “enfeitadas” como um símbolo da riqueza e do poder de Deus (ou de Portugal) e ainda em movimentos como a Art Nouveau.

Entretanto foi este meu confesso preconceito à exagerada ênfase da decoração na arte, apesar das inúmeras feiras e mostras de arquitetura reinantes (sempre muito bem organizada, planejadas e apoiando inúmeros artistas locais), que me levou a reparar numa exposição que parece abdicar do caráter decorativo.

Diálogos” de Fernando França, em cartaz no Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura – CCDMAC, em Fortaleza, traz um conteúdo forte, sob o ponto de vista da história e do registro do contemporâneo. Um papel que talvez hoje coubesse mais à fotografia (um projeto semelhante feito por um fotógrafo cairia muito bem). E em que é usada a metalinguagem como instrumento basilar. Algo que é muito caro aos artistas e difícil de ser utilizada com propriedade.

São pinturas em grandes dimensões retratando alguns dos mais importantes artistas plásticos cearenses vivos (quase todos), nas quais os próprios artistas interferem nas obras com uma referência a seus trabalhos. São, portanto, obras em co-autoria em que figuram o retrato pintado (por França) do respectivo artista escolhido e um exemplo dos trabalhos dos artistas produzidos por eles mesmos e inseridos nas telas. Uma idéia interessante que parecia não ser muito viável, mas que deu certo.

As telas são testemunhos e documentos e fazem um recorte da pintura cearense na atualidade. Neste sentido aproximado da fotografia documental no momento em que ela é, na arte contemporânea, desvalorizada frente a uma abordagem mais conceitual da imagem. As obras também existem como documentos históricos e pedagógicos da arte, registrando, documentando e informando sobre o tempo contemporâneo da arte cearense e a alguns de seus principais expoentes.

Certamente as telas não se adequarão a combinar com sofás e cadeiras das salas dos lounges modernos. Mas possuem uma importância singular para arte quando se propõe a registrar quem são e o que produzem os artistas do Ceará e fazendo isso por meio da própria pintura.

Uma das telas mais importantes da humanidade foi feita por Diego Velàzquez (1599 -1657), As meninas ou A família de Filipe IV, 1656, atualmente no Museu do Prado em Madri. Nela o pintor espanhol brinca com o jogo de espelhos, tela e olhares, nos colocando ora como espectadores, ora como pintores, ora como reflexo, ora como obra. Trata-se de uma das peças mais discutidas no mundo por apresentar múltiplas interpretações e por falar de pintura e de imagem através da própria pintura e da própria imagem. Talvez seja o exemplo mais importante da arte falando dela mesma.

França em seu trabalho também nos propõe conversarmos e aprendermos arte através dela mesma. Entre os artistas retratados estão Ascal, Zé Tarcísio, Descartes Gadelha, entre outros. Mesmo se existissem muitos críticos de arte no, e do, Ceará e muitos historiadores da arte cearense como, por exemplo, o mestre Estrigas (Dodora Guimarães e Roberto Galvão também são exemplos de intelectuais que desempenha brilhantemente esse papel). Mesmo que eles fossem todos excelentes, isentos e dispostos a dar uma interpretação profunda sobre as artes plásticas no Ceará, ainda assim não seria melhor do que o registro de um artista falando dos seus pares por meio da própria arte que fazem.

Quem está ligado às artes plásticas cearense de alguma forma ou quem está em formação e quer conhecer um extrato significativo do que de melhor se produz, e quem produz essa arte, tem uma oportunidade impar em “Diálogos” por Fernando França, no CCDMAC, até 06 de novembro de 2011. Mas não esperem decoração para por na sala, pois o que terão é um testemunho da arte que se faz hoje no Ceará, e é de valia inestimável.



Outubro de 2011.

Imagens:


Estrigas retratado por Fernando França na Exposição Diálogos
fonte: http://dialogosfernandofranca.blogspot.com/


Hélio Rola retratado por Fernando França
fonte:http://dialogosfernandofranca.blogspot.com/
"As Meninas" ou "A Familia de Filipe IV" (1656), Diego Velázquez (1599 -1657), Museu do Prado, Madri




Serviço:
24 de Agosto a 6 de novembro de 2011
Terças a quintas 9h às 19h – Sextas a Domingos 14h às 21h
Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar
Gratis
+ 85 3488 8600

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Pintura, um impasse

Se conhecêssemos toda a história da arte e compreendêssemos tudo até Picasso, e de repente nos deparamos com uma tela cubista do artista, em pânico enxergaríamos o ponto final da pintura. “O homem” chegou ao máximo do que a pintura podia dar até então, subvertendo a profundidade de campo (para usar um termo da fotografia) sem fazer uma pintura chapada. Em Picasso temos vários ângulos em um ângulo só.

Gris, Juan
Portrait of Picasso
1912
Oil on canvas
93.4 x 74.3 cm. (36 3/4 x 29 1/4 in.)
The Art Institute of Chicago
(DC 13)
fonte: 
http://www.artchive.com

Pollock, como sem ter para onde seguir, deve ter se desesperado, assim como todos os pintores que viram o gênio de Picasso (e Braque também, vamos dar os créditos devidos) chegar ao ponto extremo, final.

Mas de súbito, em inspiração transcendente, Pollock concebe sua série de telas, nas quais pintava no chão, através do aperfeiçoamento da técnica das “drip paintings”. É o último suspiro da pintura. Jackson Pollock acrescenta um ponto final a mais, logo depois do espanhol. Ele conseguiu esticar o fim que se pensava ser primazia de Picasso.

A pintura é no seu ocaso, sinestésica e “não tem começo nem fim”, para citar uma crítica pejorativa sobre as telas de Pollock que acabou sendo um elogio e fundamental para conceituar essa nova espacialide e estética proposta pelo norteamericano.

Pollock, Jackson
Number 1, 1949
1949
Enamel and aluminum paint on canvas
63 in x 8 ft 6 in (160 x 259 cm)
The Museum of Contemporary Art, Los Angeles
fonte: http://www.artchive.com



Não conseguimos desde o expressionismo abstrato peculiar de Pollock ultrapassar essa barreira. Não sabemos ainda se os pontos finais de Pablo Picasso e Jackson Pollock são dois pontos: e temos o fim da pintura. Ou acrescentar-se-á um terceiro ponto. O Ponto de reticências. Simplesmente não sabemos, não temos respostas.

Esse impasse da pintura é uma das questões fundamentais porque ainda não conseguimos definir com precisão onde termina a arte moderna e começa a contemporânea.

Duchamp, Marcel
Fountain
1917 (original lost)
Readymade: porcelain urinal
Height 60 cm
Philadelphia Museum of Art

fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f6/Duchamp_Fountaine.jpg/437px-Duchamp_Fountaine.jpg


Duchamp e Man Ray de há muito, antes mesmo de Pollock, chutaram o “pau da barraca” e abdicaram da pintura para fazer arte. Eles tomaram partido pelos dois pontos: o fim da pintura. E ao mesmo tempo colocaram o terceiro ponto (reticências), para termos...Arte, arte contemporânea, arte pós-moderna.

Fortaleza,Ce, julho de 2011


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